18 de abr de 2017

Oceanos

No meu primeiro mochilão pela Europa, estava numa praia de Barcelona, provavelmente Barceloneta, tomando uma garrafa do vinho mais barato que pudesse encontrar, tempo nublado, ameaçando chover, mas continuava ali, sentado na areia, com os pés no mar, fiquei ali por um bom tempo até lembrar a coisa mais obvia do mundo, pra mim.

Era a primeira fez que colocava os pés no mar Mediterrâneo, mas essa cena comigo sentado na areia com os pés no mar já se repetiram milhares de vezes. O que me deu um estalo na cabeça em Barcelona, foi lembrar que do outro lado daquela vastidão toda de água, estaria a África.

Mas porque isso, do nada? Desde muito pequeno, sempre fui curioso, querendo saber o que havia do outro lado do mar, então quando era criança e ia pra Santos - SP, ficava imaginando a África la do outro lado, como seria, se era possível ir nadando até lá. E depois de mais de 10 horas de voo até a Europa, o outro lado do mar continuava sendo a África, o quão doido é isso?

O mundo é muito louco, do outro lado de Santos, está a Namíbia com mais ou menos 6.500km de água nos separando, e do outro lado de Barcelona, está a Argélia (tem a Ilha de Palma no meio do caminho), com seus 1.500km da mesma água, mas com nomes diferentes.

Eu, pelo menos, acho muito louco isso. Mundos completamente diferentes separados por um tesouro naufragado. 

Com os pés na água do Mediterrâneo, pensei muito nisso, o que aquelas moléculas de água teriam para me contar? Quanto de história estaria gravado ali? Escondendo registros de mil guerras, batalhas, acontecimentos importantes para a história da humanidade, pessoas importantes, pessoas que deveriam, mas não foram lembradas pois saíram daquelas águas.

Aquelas águas se agitando com o vento e anúncio de chuva, palco de tudo o que aconteceu, ator silencioso e guardião de tesouros em sua barriga, jamais vistos, a não ser por poucos sortudos, mas a maioria, apenas em sonhos.

17 de abr de 2017

Quando começa a viagem?

É logico, quando a viagem começa? Quando se embarca, a maioria dos turistas deve responder.

Essa é a diferença (uma das) entre o turista e aquela criatura, mista entre o bizarro e o interessante, que inspira e repulsa ao mesmo tempo, coberta de pó da estrada, que alguns ousam chamar de "viajante".

Essa diferença que falarei hoje é sobre o momento que a viagem, começa em diferentes momentos para diferentes pessoas.

Eu acredito que as viagens começam muito antes da partida, do embarque. Elas começam já quando se decide que vai viajar, parte da vigem é decidir os destinos, os trajetos, onde ir, o que comer. Você já está viajando quando entra no Google e começa a pesquisar sobre seu destino. Agora uma opinião muito pessoal: eu só sinto que a ficha caiu, quando depois de chegar no destino, eu tomo um bom banho e como um bom prato de comida (de preferencia local) 😁.

Esse post poderia acabar ai, mas quero falar sobre mais uma coisa: aquela sensação antes da partida.

Já perceberam aquela excitação que antecede a viagem? Assim que se compra a passagem (ou bate o martelo e decide destino e data de partida, para aguardar preços melhores) a empolgação vai lá pra cima, e não da pra fazer mais nada o resto do dia, só pensando na viagem, se isso acontece no trabalho, já era, não faz mais nada o resto do dia. Mas ela diminui gradualmente durante os próximos dias, até que aquela data começa a se aproximar. Um mês e os preparativos precisam ser finalizados e os planejamentos recomeçam. Uma semana e já tem que tirar o pó da mala e de algumas roupas, moeda local, passaporte separado. Um dia e, quer saber o que você pensa? "Nessa hora amanha, eu vou estar...". Ida pro aeroporto/estação/rodoviária: "pronto, está rolando".

A gente nunca se sente tão jovem como alguns momentos antes da partida, nos sentimos criança novamente, desajeitada e confusa. Nos despedimos como garotos se despedem de garotas na frente da escola, sem saber se deve beijar ou não. É nesse momento que a gente deveria perceber que não é a despedida que causa nervosismo, é o encontro para o qual se está indo. A despedida é apenas uma parte do encontro que o aguarda.

Azar Nasifi falou uma coisa interessante:
"You get a strange feeling when you're about do leave a place. Like you'll not miss the people you love, but you'll miss the person you are now, at this time and this place, because you'll never be this way ever again"
(Você têm um sentimento estanho quando está pra deixar um lugar. Como se não fosse sentir falta das pessoas que ama, mas da pessoa que você é agora, nesse momento e nesse lugar, porque você jamais será dessa forma novamente.

Cada escolha, uma renúncia.

13 de abr de 2017

As vantagens de se perder durante uma viagem


Nas viagens moderas é muito difícil se perder, mapas, guias, aplicativos de celulares evitam maiores transtornos aos que não conhecem a língua local para chegar até uma atração ou voltar para o hospedaria. Inclusive, numa viagem, descobri um aplicativo fantástico: Here (não se trata de publicidade, apenas gostei mesmo do app), ele é basicamente um GPS, mas o melhor de tudo é que ele funciona sem usar dados do celular, internet, nada, utilizei ele com o modo avião ativado e foi perfeito.

Mas aqueles que se aventuram um pouco, sem esses artifícios todos, geralmente acaba encontrando lugares novos, super interessantes, fora da rota dos turistas e normalmente com preços muito melhores. Já ouvi milhões de historias de pessoas que se "perderam" e acabaram encontrando restaurantes, bares, lojas, cafés, estátuas e até outras pessoas que jamais encontrariam se tivessem seguido à risca o roteiro.

Já me perdi um bocado durante as minhas viagens e relato o mesmo. Mas uma ocasião em especial, merece destaque.

Fui visitar alguns parentes no interior do estado de São Paulo, em Bocaina, uma cidade super pequena e pacata, sem muito o que fazer, a típica Igreja Matriz na praça central onde todo mundo se reúne, e eu confesso que adoro essas cidades, as pessoas geralmente são mais abertas para você conversar, as ofertas de comida caseira são impagáveis e a tranquilidade é outra coisa que não tem preço. Numa tarde sossegada, resolvi pegar o carro e explorar os limites da cidade. Claro que levou poucos minutos até acabar a cidade, dado o tamanho da sua área urbana, mas resolvi continuar um pouco mais alem.

Comecei a me embrenhar por estradas de terra, bifurcações, virar à esquerda, à direita, mais bifurcação e eu já estava perdido. Após alguns kilometros apreciando a vista, já estava perdido, realmente não consegui encontrar o caminho de volta para a cidade. Resolvi seguir por alguma das estradas até encontrar algum sítio, fazenda ou até algum carro, onde haveria alguém para me orientar a voltar. Sem placas, sem sinalizações de qualquer tipo, continuei pelo que acredito ter sido menos de 5km desde o momento que me declarei perdido, até que vi um tipo de construção ao longe, apontei para la e segui.

Quanto mais perto chegava, mais estranhava o tipo da construção que em nada se parecia com o restante da cidade. Um grande lago e na sua outra margem, diversas casas pequenas, galpões e moinhos misturavam o moderno com o antigo. O terreno era muito, muito grande, mas o mais estranho era que quanto mais perto chegava das casas e dos galpões mais suspeita eu tinha de que não havia uma alma sequer por lá.


A foto acima é a foto da chegada ao local, me arrependo de ter tirado apenas uma foto. 

Vaguei um pouco pelas casas, me aproximei de um dos galpões onde julgava haver pessoas trabalhando, parei o carro, chamei, bati palmas, mas ninguém respondeu, tudo trancado, nenhuma luz parecia acesa, nenhuma resposta aos chamados. Após algum tempo, vi um senhor, já bem de idade saindo de uma das casa e fui até ele, cumprimentando-o e expliquei que havia me perdido e se ele tinha como me orientar a voltar para a cidade.

Após uma explicação bem simples, agradeci e aproveitei para perguntar o que era ali e o porque de estar tão vazio.

A resposta sobre estar tão vazio não podia ser mais obvia: "Já passa das 5", o expediente já devia ter acabado e os moradores aproveitavam para comer e descansar.

Sobre o que era ali foi o que mais me espantou, descobri que era um tipo de comunidade auto-sustentável. De alguma maneira, todos ali eram muito próximos, talvez parentes, e o que produziam ali, consumiam (basicamente, legumes e verduras), mas o excedente era utilizado como especie de escambo entre os outros produtores locais, trocava-se por um pouco de carne, feijão, milho, etc.
Parecia que não dependiam da cidade ali a poucos kilometros, tampouco de dinheiro.

Já li um pouco sobre esse tipo de comunidade, mas nunca esperei encontrar uma tão próxima. Elas me inspiram, ao mesmo tempo que tem sempre algo misterioso envolvido.
As pessoas para quem contei e pedi mais informações, pareciam conhecer o local, mas evitavam falar sobre ele, acho que nunca vou saber a verdade. Melhor assim.

12 de abr de 2017

Flor do Asfalto


Minha intenção hoje, não é falar sobre espécies que se desenvolvem com mais facilidade cercadas por asfalto, talvez nem exista tal especialidade. Quero expor algumas reflexões sobre a estrada do ponto de vista do caminhante.

Não é raro eu caminhar, a pé mesmo, por algumas estradas, claro que são trechos relativamente curtos, de locais seguros que conheço já há muitos anos, geralmente em cidades muito pequenas do interior, as vezes até como forma de exercícios físicos, nada digno de um andarilho.

Geralmente quando estou a pé na estrada, faço algumas analogias com um deserto. É lógico que se alguém se aventura num deserto de verdade, chega a rezar para encontrar uma estrada, afinal, é um claro sinal de civilização, fluxo de pessoas, ajuda. Mas as semelhanças de uma estrada com um deserto são claras ao se percorrer alguns kilometros a pé, numa mesma caminhada, não raro é possível se deparar com calor, frio, sol, chuva, luz, escuridão, fome e sede. Sobre estes últimos, imagine-se caminhando numa estrada, sentir sede ou fome e saber que ainda uma boa distancia a ser percorrida.

Sobre sentir fome e sede na estrada, posso dizer que não é muito difícil, ao ver aquela vastidão sem fim, sentir certos delírios (ainda mais por conta da desidratação, nada grave, mas acontece). Na ultima vez que estava na estrada, calculei mal minha reserva de água, o sol estava se pondo e ainda faltam cerca de 5km para chegar no meu destino, nesse momento de sufoco, me lembrei de "Paris é uma Festa", do Ernest Hemingway, não da obra toda, até porque não tinha nada a ver, mas especificamente da passagem em que ele comenta que passou muita fome durante um período de sua estadia em Paris e, por diversas vezes quando se encontrava nessa situação, ele ia até o museu dos Jardins de Luxemburgo, e começava a ver as obras a partir de uma nova perspectiva por conta da fome, acreditando que passou a entender o que o artista realmente quis transmitir com sua obra, por imaginar que ele também pintou com fome.

O deserto da estrada também é muito silencioso, é só você e o pó da estrada e, assim, você começa a reparar em muitas outras coisas que nunca iria reparar se passasse de carro, em velocidades mais altas por ali: paisagens novas, outros caminhos (geralmente picadas de terra), animais, objetos dos mais diversos deixados na estrada (é impressionante o que as pessoas deixam lá).

Começa a reparar nas muitas camadas de asfalto, que é visível para quem anda no acostamento e as rachaduras da camada mais recente, todo o pó da estrada se acumulando ali durante anos a fio. Uma coisa que acho muito interessante sobre isso é o quanto de história está acumulada ali, aquela mistura de asfalto, poeira, pedras e vegetação viu algumas gerações mudarem, grandes acontecimentos políticos e naturais, bem ali, é um registro silencioso de tudo. Gostaria muito que fosse possível analisar o pó da estrada em suas mais diversas camadas, assim como analisam o gelo na Antártida: remover pequenos cilindros de asfalto, e ver ali nas suas camadas a história depositada em forma física, resultado as ações do ser humano.

As vezes, nasce no meio dessas rachaduras, ainda que por um período muito pequeno, uma bela flor do asfalto.

11 de abr de 2017

Pó da Estrada

Post inicial aqui nesse blog. O que eu pretendo?

Como eu geralmente odeio ler os prefácios dos livros (na maioria das vezes, feito por escritores desconhecidos e presunçosos, cheios de linguagem rebuscada que raramente acrescentam algo de útil para quem ainda vai ler o livro em questão), serei breve por aqui.

Ao longo do tempo, venho rabiscando algumas coisas que passam pela minha cabeça sobre a estrada (na maioria, durante viagens) e pretendo aqui expor algumas reflexões sobre esses assuntos.

O "Pó da Estrada" nasceu da vida na estrada, não necessariamente estrada física, mas tudo aquilo que te afasta do que chamamos de "casa".

Cada vez que viajo, seja uma viagem de ônibus para uma cidade a 100km de casa ou um voo que cruza oceanos, novos pensamentos surgem, bons e ruins e, verdade seja dita, muita coisa acontece, nunca volto igual.

Para todos, que assim como eu, estão cobertos por uns dois dedos de pó da estrada, ou que encontraram isso na louca busca por inspiração para viver da estrada, bem vindos.