13 de abr de 2017

As vantagens de se perder durante uma viagem


Nas viagens moderas é muito difícil se perder, mapas, guias, aplicativos de celulares evitam maiores transtornos aos que não conhecem a língua local para chegar até uma atração ou voltar para o hospedaria. Inclusive, numa viagem, descobri um aplicativo fantástico: Here (não se trata de publicidade, apenas gostei mesmo do app), ele é basicamente um GPS, mas o melhor de tudo é que ele funciona sem usar dados do celular, internet, nada, utilizei ele com o modo avião ativado e foi perfeito.

Mas aqueles que se aventuram um pouco, sem esses artifícios todos, geralmente acaba encontrando lugares novos, super interessantes, fora da rota dos turistas e normalmente com preços muito melhores. Já ouvi milhões de historias de pessoas que se "perderam" e acabaram encontrando restaurantes, bares, lojas, cafés, estátuas e até outras pessoas que jamais encontrariam se tivessem seguido à risca o roteiro.

Já me perdi um bocado durante as minhas viagens e relato o mesmo. Mas uma ocasião em especial, merece destaque.

Fui visitar alguns parentes no interior do estado de São Paulo, em Bocaina, uma cidade super pequena e pacata, sem muito o que fazer, a típica Igreja Matriz na praça central onde todo mundo se reúne, e eu confesso que adoro essas cidades, as pessoas geralmente são mais abertas para você conversar, as ofertas de comida caseira são impagáveis e a tranquilidade é outra coisa que não tem preço. Numa tarde sossegada, resolvi pegar o carro e explorar os limites da cidade. Claro que levou poucos minutos até acabar a cidade, dado o tamanho da sua área urbana, mas resolvi continuar um pouco mais alem.

Comecei a me embrenhar por estradas de terra, bifurcações, virar à esquerda, à direita, mais bifurcação e eu já estava perdido. Após alguns kilometros apreciando a vista, já estava perdido, realmente não consegui encontrar o caminho de volta para a cidade. Resolvi seguir por alguma das estradas até encontrar algum sítio, fazenda ou até algum carro, onde haveria alguém para me orientar a voltar. Sem placas, sem sinalizações de qualquer tipo, continuei pelo que acredito ter sido menos de 5km desde o momento que me declarei perdido, até que vi um tipo de construção ao longe, apontei para la e segui.

Quanto mais perto chegava, mais estranhava o tipo da construção que em nada se parecia com o restante da cidade. Um grande lago e na sua outra margem, diversas casas pequenas, galpões e moinhos misturavam o moderno com o antigo. O terreno era muito, muito grande, mas o mais estranho era que quanto mais perto chegava das casas e dos galpões mais suspeita eu tinha de que não havia uma alma sequer por lá.


A foto acima é a foto da chegada ao local, me arrependo de ter tirado apenas uma foto. 

Vaguei um pouco pelas casas, me aproximei de um dos galpões onde julgava haver pessoas trabalhando, parei o carro, chamei, bati palmas, mas ninguém respondeu, tudo trancado, nenhuma luz parecia acesa, nenhuma resposta aos chamados. Após algum tempo, vi um senhor, já bem de idade saindo de uma das casa e fui até ele, cumprimentando-o e expliquei que havia me perdido e se ele tinha como me orientar a voltar para a cidade.

Após uma explicação bem simples, agradeci e aproveitei para perguntar o que era ali e o porque de estar tão vazio.

A resposta sobre estar tão vazio não podia ser mais obvia: "Já passa das 5", o expediente já devia ter acabado e os moradores aproveitavam para comer e descansar.

Sobre o que era ali foi o que mais me espantou, descobri que era um tipo de comunidade auto-sustentável. De alguma maneira, todos ali eram muito próximos, talvez parentes, e o que produziam ali, consumiam (basicamente, legumes e verduras), mas o excedente era utilizado como especie de escambo entre os outros produtores locais, trocava-se por um pouco de carne, feijão, milho, etc.
Parecia que não dependiam da cidade ali a poucos kilometros, tampouco de dinheiro.

Já li um pouco sobre esse tipo de comunidade, mas nunca esperei encontrar uma tão próxima. Elas me inspiram, ao mesmo tempo que tem sempre algo misterioso envolvido.
As pessoas para quem contei e pedi mais informações, pareciam conhecer o local, mas evitavam falar sobre ele, acho que nunca vou saber a verdade. Melhor assim.

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