12 de abr de 2017

Flor do Asfalto


Minha intenção hoje, não é falar sobre espécies que se desenvolvem com mais facilidade cercadas por asfalto, talvez nem exista tal especialidade. Quero expor algumas reflexões sobre a estrada do ponto de vista do caminhante.

Não é raro eu caminhar, a pé mesmo, por algumas estradas, claro que são trechos relativamente curtos, de locais seguros que conheço já há muitos anos, geralmente em cidades muito pequenas do interior, as vezes até como forma de exercícios físicos, nada digno de um andarilho.

Geralmente quando estou a pé na estrada, faço algumas analogias com um deserto. É lógico que se alguém se aventura num deserto de verdade, chega a rezar para encontrar uma estrada, afinal, é um claro sinal de civilização, fluxo de pessoas, ajuda. Mas as semelhanças de uma estrada com um deserto são claras ao se percorrer alguns kilometros a pé, numa mesma caminhada, não raro é possível se deparar com calor, frio, sol, chuva, luz, escuridão, fome e sede. Sobre estes últimos, imagine-se caminhando numa estrada, sentir sede ou fome e saber que ainda uma boa distancia a ser percorrida.

Sobre sentir fome e sede na estrada, posso dizer que não é muito difícil, ao ver aquela vastidão sem fim, sentir certos delírios (ainda mais por conta da desidratação, nada grave, mas acontece). Na ultima vez que estava na estrada, calculei mal minha reserva de água, o sol estava se pondo e ainda faltam cerca de 5km para chegar no meu destino, nesse momento de sufoco, me lembrei de "Paris é uma Festa", do Ernest Hemingway, não da obra toda, até porque não tinha nada a ver, mas especificamente da passagem em que ele comenta que passou muita fome durante um período de sua estadia em Paris e, por diversas vezes quando se encontrava nessa situação, ele ia até o museu dos Jardins de Luxemburgo, e começava a ver as obras a partir de uma nova perspectiva por conta da fome, acreditando que passou a entender o que o artista realmente quis transmitir com sua obra, por imaginar que ele também pintou com fome.

O deserto da estrada também é muito silencioso, é só você e o pó da estrada e, assim, você começa a reparar em muitas outras coisas que nunca iria reparar se passasse de carro, em velocidades mais altas por ali: paisagens novas, outros caminhos (geralmente picadas de terra), animais, objetos dos mais diversos deixados na estrada (é impressionante o que as pessoas deixam lá).

Começa a reparar nas muitas camadas de asfalto, que é visível para quem anda no acostamento e as rachaduras da camada mais recente, todo o pó da estrada se acumulando ali durante anos a fio. Uma coisa que acho muito interessante sobre isso é o quanto de história está acumulada ali, aquela mistura de asfalto, poeira, pedras e vegetação viu algumas gerações mudarem, grandes acontecimentos políticos e naturais, bem ali, é um registro silencioso de tudo. Gostaria muito que fosse possível analisar o pó da estrada em suas mais diversas camadas, assim como analisam o gelo na Antártida: remover pequenos cilindros de asfalto, e ver ali nas suas camadas a história depositada em forma física, resultado as ações do ser humano.

As vezes, nasce no meio dessas rachaduras, ainda que por um período muito pequeno, uma bela flor do asfalto.

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